Exemplos de projetos sociais para um mundo sustentável: parceria entre empresas e pobres no quadro dos objectivos de desenvolvimento sustentáveis

DOUTORA Deolinda Bebiana de Almeida: LARGOU A CARREIRA DIPLOMATICA PARA AJUDAR POBRES EM LUANDA/Angola-Àfrica

São poucas as pessoas que largariam as próprias carreiras para se dedicarem a ajudar os outros a saír da pobreza. E muito menos caso ocupem uma posição de destaque em organizações internacionais, como a própria Nações Unidas. Mas foi o que fez Deolinda Bebiana de Almeida, uma figura discreta da sociedade angolana, que durante vários anos representou Koffi Anan, então secretário-geral da ONU, em alguns países. Foi representante adjunta do PNUD no Mali, Botswana e Madagáscar, depois representante residente uma parte no Madagáscar e outra parte na República Centro-Africana. Em 2002 decidiu regressar para Angola e dedicar-se ao Combate à Pobreza com a Associação dos Profissionais e Amigos de Combate à Pobreza. Encontrou na então Lixeira do Golfe, em Luanda, aqueles que identificou como ‘os pobres dos mais pobres’ e ajudou perto de 500 famílias a reconstruírem as suas vidas. Mas não foi uma tarefa fácil. Chegou a ser apedrejada por aqueles que já tinham perdido a esperança e hoje, 14 anos depois, se tornaram seus parceiros nesta luta

O que a motivou lutar contra a pobreza?

Muito obrigado pela pergunta que considero pertinente. Em primeiro lugar, eu sou uma cidadã que conheceu um pouco de perto a pobreza. Também venho de uma família que nunca foi assim muito abastada, tornou-se mais tarde na vida.

Nasci em Calumbunze. Se você tiver que ir lá hoje vai ver que é uma aldeiazinha, vivíamos perto dos irmãos e só agora é que começa a se desenvolver com as Quiminhas e outras coisas. Nasci ai, numa família humilde e foi pela luta dos meus pais, e até pela contribuição que recebi da Igreja Metodista, que a vida foi melhorando.

Isso me fez dizer que a pobreza não é uma fatalidade em qualquer parte do mundo. A pobreza pode ser combatida, vencida, por causa deste historial todo da minha vida privada e profissional. O que me leva a entregar-me a este desafio foi algo de pessoal e muito profundo, onde mobilizo também junto de mim outras pessoas.

Foi a decepção que tive depois do meu regresso de uma missão de 14 anos a nível das Nações Unidas. Naquela organização que conhecemos como Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Viveu a pobreza de perto nos países em que passou pelo PNUD? Acompanhei porque era o meu trabalho. Eu entro já a um certo nível, porque antes de ingressar os quadros das Nações Unidas, através do PNUD, trabalhei como quadro do meu país Angola, como directora nacional da Cooperação, durante 14 anos, depois de regressar do meu exílio nos Estados Unidos.

Quando regresso dos Estados Unidos, fui sempre do MPLA e hoje continuo a ser, novamente faço a minha entrega à causa e envolvi-me neste processo todo. Depois da independência integrei os quadros da Secretaria de Estado das Relações Exteriores, que hoje passou a ser Ministério, e fiquei a trabalhar com Garcia Neto. Infelizmente, aconteceu o 27 de Maio, o Garcia Neto morre e torno-me então directora da Cooperação, cujo secretário era o senhor Adolfo Nsikalangu. Trabalho então num domínio de cooperação internacional cobrindo a área bilateral e multilateral. Foi assim que também comecei a ter uma certa decepção neste domínio de desenvolvimento, porque o que nós queríamos mesmo como Nação era desenvolvermo-nos. Estávamos na reconstrução e depois disso era o desenvolvimento.

Ali comecei a ter algumas dúvidas de como é que se fazia o desenvolvimento num mundo em que temos doadores e recipientes, em que os países sub-desenvolvidos são geralmente recipientes e os desenvolvidos doadores. Então comecei a conhecer de perto esta diferença entre práticas de cooperação que existia entre os chamados doadores e os recipientes. Enfrentei uma série de dificuldades porque não aceitava algumas das formas das políticas e estratégias de desenvolvimento.

Começou a ter decepções?

Sim, por causa das formas ou parcerias. Portanto, era uma forma de cooperação entre doadores e recipientes, entre países desenvolvidos e sub-desenvolvidos. Como é que se aplicavam as políticas e estratégias de desenvolvimentos na sua prática? Começo a ter esta decepção e, na altura, escolhi juntar-me aos quadros internacionais das Nações Unidas. Através de apoios do meu próprio Governo, porque na altura precisávamos de alguns quadros nas Nações Unidas, fui felizmente aceite pelo Governo para ir juntarme a estes quadros e aí também tive a felicidade de ser recrutada e aprovada nos quadros de gestão a nível médio. Como já era directora, então a ONU estava à procura destes tipo de quadros, era mulher – e beneficiei também disso- e tinha experiência.

Conhecia as línguas, português, inglês e um bocado de francês, fui selecionada e assim ingressei nas Nações Unidas. Trabalhei pela primeira vez no Mali, onde fiquei apenas um ano, depois no Botswana (5 anos), Madagáscar (5 anos) e República Centro-Africana.

O que fui nestes países? Fui representante adjunta do PNUD no Mali, Botswana e Madagáscar, depois representante residente uma parte do Madagáscar e outra parte na República Centro- Africana, onde também me tornei a coordenadora do Sistema das Nações Unidas.

Geralmente, os representantes do PNUD coordenam o sistema todo das Nações Unidas. Então nesta altura representei Koffi Anan durante três anos. Coordenei os programas do HCR, UNICEF e de todas outras agências das Nações Unidas. Em 2001 escolhi antecipar a minha reforma no quadro das Nações Unidas e regressar ao país.

É verdade que os dirigentes ainda me solicitaram para representar Angola em Washington e nas Nações Unidas, mas como vinha altamente decepcionada, escolhi pedir desculpa ao meu Governo e dizer que não. Preferi regressar ao meu país e ver se podia fazer alguma coisa.

É assim que um ano depois regressa?

Sim, foi assim que regressei definitivamente em 2002, negociei com o meu Ministério das Relações Exteriores (MIREX) e fui autorizada para ser um quadro emprestado a essa experiência que levamos a cabo de combate à pobreza. Eu queria ver o que se podia fazer dessa pandemia que a gente chama pobreza.

É assim que nasce a Associação dos Profissionais e Amigos de Combate à Pobreza?

Nasce neste estado de querer experimentar transformar vidas de pessoas pobres, de pessoas muito pobres. Se seria possível modificar a vida de alguém que é mesmo pobre ou vive-se em estádio de pobreza extrema? Estas foram as perguntas iniciais que eu e outros nos fizemo. Decidimos procurar a extrema pobreza a nível de Luanda. É engraçado que tive que procurar pobreza, mas extrema, porque era realmente tão cega que não era capqaz de ver a pobreza. Não queria a pobreza da zungueira, dos jovens que deambulavam pela cidade.

Sabemos que juntamente com o motorista e uma assistente, elegeram os então moradores da Lixeira do Golfe. Porquê?

Foi precisamente esta outra colaboradora, por sinal era americana e fazia imagens, que me lembrou: Oh, Bebiana, aqui ao lado no Golfe há aquela lixeira e uma fumaça enorme. Vamos ver o que há ali. Foi assim que eu e o meu motorista terminamos ali.

É verdade que chegou a ser apedrejada pelos então moradores da Lixeira do Golfe?

Fomos apedrejados. Tudo aconteceu ali. Tive que me esconder na viatura. O motorista é que saiu para tentar evitar todas aquelas pedras e barras de ferro que atiravam contra nós. Passados vários anos, já percebeu por que foi apedrejada e escorraçada por aquelas pessoas que acabaram por sair da miséria graças a si? Escorraçada e apedrejada e de que maneira! Foram várias vezes, não foi só uma. Hoje compreendo: Era frustração. E nesta frustração, estavam aí muitos anos por causa da guerra. Já tinham visto passar por eles muitos jornalistas, repórteres que tentavam ver a situação e passar para ver se alguns cidadãos, governantes e outros tivessem conhecimento da situação.

Eles estavam altamente frustrados e não queriam mais estas imagens dos jornalistas. Eles disseram- me que ‘estamos cansados dos repórteres que vêm cá para descobrir esta miséria nossa e passarem isso na Televisão. Não queremos cá mais ninguém’. Então tivemos que ser persistentes, compreender a situação deles. Como éramos um pouco mais que jornalistas, estávamos ali para fazer um estudo daquela situação e ver o que se podia fazer, naquele quadro de pobreza, então foi depois de umas três ou quatro tentativas que começaram muito devagar a aceitar. Sabe que há sempre crianças que na sua curiosidade estão aí à volta e eles tinham também aí na Lixeira do Golfe. A algumas dessas crianças que vinham decidimos levar rebuçados.

Foi uma táctica muito eficaz, porque as crianças ficavam todas à nossa volta, impediam que os pais atirassem as pedras e mais tarde foram os próprios pais e mães que também se aproximaram, porque também queriam rebuçados. Então, sempre que fôssemos já sabíamos que tínhamos que levar o nosso saquinho de rebuçados e assim começamos a construir uma certa confiança, que se desenvolveu entre eles e nós, e assim começamos a ser aceites.

Ficamos a trabalhar na lixeira durante três anos, a trabalhar estas pessoas miseráveis que comiam tudo que vinha dos restaurantes, através da viatura da Elisal, dormiam nos casebres que construíram com papelão e sacos de ráfia. Isso é miséria extrema! Para se conhecer este tipo de vida, meu caro sobrinho Dani, é preciso estar aí muito perto e sentir isso.

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